... da totalidade das coisas e dos seres, do total das coisas e dos seres, do que é objeto de todo o discurso, da totalidade das coisas concretas ou abstratas, sem faltar nenhuma, de todos os atributos e qualidades, de todas as pessoas, de todo mundo, do que é importante, do que é essencial, do que realmente conta...
Em associação com Casa Pyndahýba Editora
Ano IV Número 41 - Maio 2012

TUDA

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Revista de Poesia, Literatura & Artes, desde Janeiro de 2009.
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Conto - José Geraldo de Barros Martins

Ilustração de José Geraldo de Barros Martins
Quem Poderia Imaginar Que Naquele Casarão...

Adamastor Orlando e sua esposa Ofélia Alberica adoraram o café da manhã daquele hotel em Puerto Varas, no sul do Chile... ele adorara que servissem todas as manhãs, uma jarra de suco de toranja (*), ela adorava uma fruta local chamada “papaya”, mas que na verdade parecia um mistura de mamão com maracujá... chegaram àquela cidade, no final do dia anterior... O tempo estava nublado, resolveram então que o melhor era não fazer nenhum passeio motorizado pelos arredores... poderiam comer algo, beber vinho e caminhar pelas redondezas...

Ofélia Alberica sugeriu comer no restaurante do hotel, afinal no dia anterior almoçaram em um restaurante bastante exótico em Ancud, na ilha de Chiloé... comeram Curanto, um prato típico local em que mariscos, e pedaços de carne de frango e de porco são cozidos com folhas de uma planta chamada “pangue”, até que gostou, mas achou o sabor um tanto quanto forte...

Adamastor Orlando tinha preconceito com comida de hotel e preferia sair para procurar um lugar intuitivamente, como acontecera no dia anterior, quando sem querer se deparou com o retro-mencionado restaurante, onde entre a exótica decoração, conseguiu fotografar uma bem-humorada placa: “Aqui se come mal, pero al frente se come peor.”... fotografou também o tal do prato típico e depois comeu quase tudo (com exceção aos pedaços de frango que considerou suspeitos).

Mas naquele dia, resolveram comer no hotel ... após a refeição, o nosso protagonista se surpeendeu pois além da “comida-de-hotel” estar excelente, naquela viagem haviam passado pela Argentina, mas foi justamente no Chile que comeram a melhor carne... “_- É preciso desmistificar as coisas –argumentava para sua cara-metade – vejam o caso do Bar Léo...

Depois do farto almoço, foram caminhar pela cidade ... primeiramente visitaram a catedral, depois seguindo pela Calle Verbo Divino, sem querer se depararam com um antigo bairro alemão nos arredores da Calle San Ignacio ... antigas casas de madeira, muitas mal-conservadas, mas sempre com um jardim arrumado, com cortinas, e muitas vezes com algumas belas flores... no início os nossos protagonistas ficaram deslumbrados com o ambiente, porém ao caminharem em direção a Calle Del Salvador, Calle Otto Bader, Calle Chrstel Fresse e arredores, reparavam que as pessoas entravam apressadamente paras as casas assim que os avistavam, Ofélia Alberica dizia para Adamastor Orlando que não estava gostando do ambiente, que estava assustada pois aquelas casas pareciam estar mal-assombradas, com olhinhos sorrateiros a prescurtar os passos dos transeuntes ... O nosso protagonista também achava a mesma coisa e queria retornar ao centro da cidade, quando um jovem os interrompeu perguntando se eram brasileiros... ele falava português quase sem sotaque, disse que se chamava Fantito Gasparez e que havia morado no Brasil alguns anos e também que gostava de conversar na nossa lingua... disse ainda que morava na casa da esquina em frente... e convidou-os para um chá...

O casal, a princípio titubeou, porém sem jeito, resolveu aceitar o convite: era uma casa antiga, por fora parecia estar mal-assombrada, mas por dentro era magnífica: móveis da década de setenta bem conservados (a maioria de fórmica), um toca-discos antigo, luminárias de acrílico, caixotes com discos de vinil, cartazes dos filmes “Terra Em Transe” de Glauber Rocha e “O Bandido da Luz Vermelha”...

Adamastor Orlando estranhou alguém possuir estes cartazes sobre antigos filmes brasileiros em um local tão distante de Pindorama, e enquanto o anfitrião preparava o chá o nosso protagonista pediu permissão para olhar os livros e os discos de vinil... permissão concedida, Adamastor reparou na existência de um exemplar original de “Panamérica” de José Agripino de Paula, outro de “Deus da Chuva e da Morte” de Jorge Mautner.... reparou também em alguns Long Plays da época da tropicália: discos de Caetano, Gil, Gal e Mutantes...

O chá é servido .... Fantito Gasparez contou a sua estória... disse que passou bons anos no Brasil e que retornou ao Chile no início de setenta e três... depois a narrativa ficou um pouco confusa...

O casal protagonista disse que precisava ir embora, pois temia estar sendo inconveniente... despediram-se... o anfitrião sorridente os acompanhou até a porta...

Quando estavam a cerca de cinquenta metros de distância, Adamastor Orlando disse que tinha algo errado naquela casa e resolveu voltar, Ofélia Alberica disse que era tudo imaginação dele, que seria melhor não perder tempo e seguir logo para o hotel.... ele porém retornou à casa de Fanturito Gasparez e sorrateiramente espiou pela fresta da janela...

Adamastor não acreditou no que viu: a casa estava vazia e parecia estar a muito tempo abandonada.

(*) toranja é a palavra portuguesa para pomelo (espanhol), pamplemouse (francês) ou grapefruit (inglês).

Conto - Cesar Cruz

Udi Peled - Drunk, Oil on Canvas

A Bebida Mata

Minha irmã Telma, que era a única que sabia o que eu vinha passando na mão dele, foi quem me deu a ideia. Não tem erro, ela falou, você faz do jeitinho que te falei e depois sai que nem louca pela rua, com o pano de louça na mão e um prato na outra, pingando detergente, e gritando desesperada, socorro, pelo amor de Deus, acudam meu marido, você vai berrar isso bem alto, enlouquecida, aí bate numa porta, numa outra, e as portas vão abrir e vai sair homem de cueca, mulher calçando chinelo, até criança, que a essa hora ainda tem muita acordada, e vai juntar gente, e você chora e treme, descabelada, e de repente solta o prato que vai estourar no chão e agravar o drama da coisa, e aponta pra porta aberta da sua casa dizendo, meu marido, meu Deus, meu marido caiu, e você soluça e chora, meu Deus, meu Deus, ele bebe muito e caiu, acho que se machucou! E uns vão te amparar e alguém vai buscar um copo dágua com açúcar, enquanto uns tantos vão correr lá conferir, que essas vizinhanças, você sabe, são sedentas por desgraça e sangue pra animar as vidinhas bestas que eles têm, gente que vai largar com prazer o jornal da noite e se aglomerar na sala da sua casa, às dezenas, e vão mexer no Orlando, virar o corpo dele pra cima, encher tudo de sujeira e digitais, pisar na poça de sangue e deixar mil marcas no local acabando com qualquer chance da polícia conseguir fazer algum tipo de perícia lá, caso cogitem isso, o que me parece bem improvável.

Gostou? Vai por mim, eu assisto aqueles documentários de medicina forense do Discovery, sou quase uma perita!

Gostei sim da ideia, mas fiquei dias pensando nos detalhes todos, se eu teria coragem, se alguém podia desconfiar. Enquanto isso ia aguentando os xingos dele, os tapas humilhantes que ele me dá na cabeça e quando me chama de vaca imprestável, fala que a comida está um bosta, que eu estou gorda que nem uma porca... Ninguém merece viver assim.

Um mês depois da conversa com a Telma, ele chegou numa certa noite do bar quase às 11h, bêbado. Apontou na porta da cozinha, se apoiando no batente, e me olhou com um sorrisinho de desprezo. Aí, gorda, ele disse, e gargalhou. Fiquei estática olhando pra cara dele, sem dizer nada. Aí que ele riu mais ainda, de jogar a cabeça pra trás, e repetiu aí gorda, rá, rá, rá! Aí gorda! Rá, rá! Abriu a geladeira, pegou uma garrafa de cerveja, um copo e foi pra sala rindo da minha cara. Nem mexeu nas panelas, que já estavam com a janta pronta.

Meia hora depois terminei de lavar a louça e quando desliguei a água percebi que da sala só vinha o som da vinheta do jornal. Nesse dia ele nem pediu a janta, que ficou intocada. Eu também não comi nada, tamanha a ansiedade.

Certas coisas nunca mudam. Ele estava dormindo sentado no sofá com a cabeça jogada prá trás, o gogó do pescoço olhando pra mim, o copo de cerveja vazio na mão. Tomou uma garrafa inteira em menos de meia hora, o cachorro.

Respirei fundo duas vezes e soltei o ar devagar, olhando pra ele ali. Fui na cozinha e peguei o rolo de papel toalha e pus em cima da TV. Puxei umas folhas e com elas tirei com cuidado o copo da mão dele. Segurando com o papel, pelo fundo, bati a borda no chão. Deu uma trincada boa e ficaram duas pontas bem afiadas. Coloquei na mão dele e, com a minha segurando por cima, levei até encostar as lascas afiadas bem no gogó. Empurrei duma vez, com as duas mãos. A pele fez um estalo seco e o vidro entrou fundo. Ele deu um pulo que nem touro de rodeio e arregalou os olhos soltando um grito aguado, mas eu montei em cima dele e mantive a pressão, os olhos enormes olhando pros meus, acho que não me viam, viam através de mim, já pra outro mundo. Empurrei de novo, mais fundo, com o peso das costas, e o sangue desceu grosso, escuro pela camisa, e ele foi virando os olhos pro teto, a língua saindo pela boca aberta e uns ruídos líquidos vindo da garganta, até que parou.

Por pouco não sujei minha roupa de sangue.

Desmontei dele e me recostei na parede, meu coração saltando. No jornal o Willian Waack falava sobre as eleições nos Estados Unidos e as taxas de desemprego dos americanos.

Tirei mais um monte de folhas do rolo de papel toalha e limpei bem as mãos. Depois peguei ele pelos dois pulsos e puxei forte pra frente. Quase destronquei as costas. Ele veio até a beirada do sofá, a cabeça de lado e o copo enfiado no pescoço. Puxei de novo e ele caiu pro chão de joelhos, depois desabou de frente, que nem um saco, de cara no piso frio.

De repente me peguei pensando que ele morreu sem jantar a janta nojenta da gorda aqui. Olhei ao redor pensando no que mais tinha que ser feito. Joguei os papéis na privada e dei descarga, depois conferi o sofá, limpo de sangue, graças a Deus. Pra finalizar dei uma empurrada na mesa de centro enrugando o tapetinho que fica embaixo.

Na cozinha, lavei as mãos com detergente, peguei um prato do escorredor e saí pra rua, como a Telma ensinou, gritando socorro, pelo amor de Deus, me acudam!

Ainda bem que tenho vizinhos bons. As pessoas surgiram que nem formiga atrás de doce. Juntou uma multidão na minha sala. Fiquei lá da calçada choramingando e esperando, amparada por um monte de abraços.

Depois de quinze minutos de entra e saí, vi quando o Resgate chegou e dois paramédicos entraram correndo e expulsando as pessoas de casa. A multidão se empoleirou na porta pra espiar.

Minutos depois, o seu Clésio, marido da dona Jandira, surgiu do meio do povo com mais dois homens da vizinhança, e vieram na minha direção, avançando sérios, como sacerdotes em missão. Você vai ter que ser forte, foi o que o seu Clésio me disse, pondo a mão no meu rosto.

Conto - José Miranda Filho

Joan Miró - Self-portrait

Encontro de Amigos - Parte 6

Marcos, o amigo brasileiro que vive em Madri, é filho de um grande companheiro que conheci em Campo Formoso – região norte da Bahia - quando lá estive fazendo compras de esmeraldas para a loja de minha mulher. Trabalhava nas minas extrativas de pedras preciosas no município. Era o encarregado da produção geral de toda produção auferida. Nenhum operário podia deixar seu posto sem ser revisado. Era um verdadeiro absurdo! Toninho, como lhe tratavam os amigos mais íntimos não concordava com essa imposição que julgava fora dos padrões de cidadania e humanidade imposta pelos ingleses que detinham a concessão da exploração mineral. Dizia ser um castigo temeroso e uma penalidade muito pesada. Talvez por isso, por defender o direito dos trabalhadores àquela época lhe apelidaram de Kruschev, alusão ao ex-presidente da antiga União Soviética, defensora dos direitos operários. Era um cara liberal para a época. Disso todos concordavam, até seus chefes superiores que o viam sob um estopim socialista, capaz de incentivar uma revolta trabalhista para conquistar novos patamares no direito social. Entretanto, seu outro lado psicossocial era severo demais nas ordens determinadas. Cobrava a produção e responsabilidades individuais. Punia quando necessário, até com suspensão do trabalho e corte de salário. Mas achava essas medidas inconsequentes e absurdas!

Campo Formoso, município do sertão baiano, situado a oeste da serra de Jacobina e serra da Mangabeira, antanho conhecido como antiga Freguesia Velha de Santo Antônio do Sertão de Jacobina, foi a 1a Povoação do norte do Estado da Bahia. Em 1682 foi elevado à categoria de Freguesia. Em 1880, através do Governador D. Antônio Araújo de Aragão Bulcão foi elevado a município com o nome atual, através da Lei Provincial no. 2051 de 28 de julho de 1880. Distante 400 km de Salvador, tem acesso pela estrada BR-324 até Senhor do Bonfim. De Senhor do Bonfim até Campo Formoso chega-se pela estrada asfaltada que liga os dois municípios. Tempos atrás também se chegava ao município de trem, pela antiga Rede Ferroviária Federal Leste Brasileiro. Hoje, acredito que a ferrovia só transporte mercadorias, não sei ao certo, nem se existe mais.

Sua população é de 62 mil habitantes, aproximadamente. É um município extrator de minérios, e em cujas minas meu amigo Toninho, pai de Marcos trabalhou. Era jovem ainda. Após a conclusão do curso secundário concluído em Senhor do Bonfim, a única alternativa de trabalho naquela região eram as minas de extração de minérios em Campo Formoso, localizadas no subúrbio, de Caraíba. Em Senhor do Bonfim passou grande parte de sua juventude, dedicando-se aos estudos, até a conclusão do curso secundário. Depois de trabalhar nas minas, decidiu tentar a vida em São Paulo, aceitando conselhos de amigos, parentes e de alguns antigos colegas de ginásio, que viviam em terras paulistanas.

Em janeiro de 1957, com a cara e a coragem desembarcou em São Paulo. De posse de uma velha mala de couro que continha apenas quatro calças, algumas camisas, um paletó de linho, algumas cuecas e um pijama, desceu no aeroporto de Congonhas sob uma fria neblina e um céu escuro, que a principio lhe amedrontou, mas o taxista que o levou a São Caetano do Sul disse-lhe que esse fenômeno atmosférico era muito natural em São Paulo.

Sem destino algum, já que seu objetivo era o Rio de Janeiro, aonde, a princípio iria estudar na Escola Militar, lembrou-se que trazia na mala uma carta da mãe de um amigo seu para a irmã dela que residia em São Caetano do Sul. Não vacilou!. Ali mesmo no táxi abriu a mala, pegou a carta, memorizou o endereço postado no envelope e seguiu para lá. O motorista estacionou bem em frente à casa. Desceu do carro, pagou a corrida, entregou a correspondência para Dona Rosita que veio lhe atender à porta e humildemente disse:

- Não tenho para aonde ir. Não conheço ninguém aqui e estou sozinho. Com a bondade no coração, gesto que caracteriza o povo nordestino, ela o acolheu, abraçando-lhe, dizendo:

- Pode ficar aqui, meu filho! Minha casa é a sua casa!”

Aquele gesto marcou profundamente seu coração, a tal ponto que hoje ele repete a quem queira ouvir algumas frases de efeito moral, que ouvira o padre falar nos sermões aos domingos, quando frequentava a igreja de Santa Cecília”. “Deus não pergunta o que nós temos, mas o que demos aos outros”.

Dona Rosita tinha dois filhos homens da mesma idade dele e uma filha. Não foi difícil integrar-se e participar do dia a dia daquela família que antes das refeições fazia orações agradecendo a Deus pelo alimento recebido. O bem mais valioso que temos na vida não é o que temos, mas a quem damos. Toninho, com certeza, tinha alguém e não alguma coisa. Esse alguém era Dona Rosita que passou a fazer parte de sua vida e a quem dedicou um carinho especial até o seu falecimento.

Permaneceu naquela casa por quase trinta dias, até estabelecer contatos com alguns amigos que conhecera no colégio em Senhor do Bonfim e que haviam vindo para São Paulo. Por meio deles conseguiu o primeiro emprego em terras paulistanas. Mudou-se para a cidade de São Paulo, e foi morar no bairro de Pinheiros, atrás do Hospital das Clínicas.

A vida em São Paulo, no início não lhe foi nada fácil, como não tinha sido também para seus amigos que deixaram o conforto da casa dos pais para aventurar-se em terras distantes. Apesar da distância e da saudade teria de se acostumar e viver a vida do paulistano, sempre apressada. São Paulo, naquela época, também conhecida como cidade Paraíso, tinha bastante oferta de emprego e vida fácil. Essa era a notícia que corria de boca em boca no nordeste, principalmente daqueles que já haviam passado pela experiência. .

Foi levando a vida conforme podia. Chorava quando a saudade apertava. Chorava nos momentos que se lembrava de casa, dos pais. Ás vezes lamentava o fato de ter deixado o lar, seus irmãos, seus amigos. No começo tudo era motivo para chorar! Mas era macho e há muito havia aprendido que macho não chora!.

Finalmente, depois de entender as razões porque viera para São Paulo e vencer as barreiras da separação e da distância conseguiu o emprego de auxiliar de correntista numa loja de departamentos na Rua Coronel Xavier de Toledo, por indicação de um correligionário que lá trabalhava. Permaneceu lá apenas dois anos, o tempo suficiente para adquirir conhecimentos e partir para outro emprego, já que havia bastante oportunidade e serviço para quem quisesse trabalhar e fosse capaz. Já tinha alguns conhecimentos e capacidade. Acostumou-se ao clima de São Paulo, sua metrópole e sua gente. Afinal, dizia sempre:

- Sou político e participo dos destinos da sociedade, ou seja: sou produto do meio. Tinha orgulho de dizer isso aos amigos e colegas de escritório. Trabalhou em todas as atividades que lhe eram destinadas antes de tornar-se um empregado qualificado. Nunca rejeitou qualquer que fosse a tarefa, até conseguir conhecimentos que sempre buscou. Trabalhou em várias atividades, desde auxiliar de alfaiate, auxiliar de sapateiro, auxiliar de padeiro, auxiliar de escritório, até vendedor de material de construção, profissão que não se adaptou, como costumava dizer: “ Tive sorte de atingir outro grau de qualidade’. Não teve sucesso nessa profissão, pois, particularmente, não conseguia vender nada. Não tinha argumentos convincentes para fazer alguém lhe comprar alguma coisa. Desistiu. O que foi muito bom para ele. Buscou outra opção.

Novos caminhos se abriram para sua realização profissional e financeira. Passado um ano, tirou as primeiras férias. Em dinheiro. Precisava dele. Necessitava comprar algumas roupas de frio e um cobertor de lã, o que fez na antiga loja Clipper, na Rua Conselheiro Crispiniano, no centro. Hoje esta loja não mais existe. O resto do dinheiro mandou para a irmã que iria se casar, a fim de ajudá-la comprar o enxoval. E foi só. Dificuldades iam sendo transpostas e novos desafios sendo conquistados à medida que o tempo passava. Contrário do que muita gente imaginava, perduravam ainda certas situações que o deixavam aborrecido, mormente, quando lhe faltava o dinheiro, escasso e curto. Lembro-me que certa vez ele me disse que existia num quarteirão além da casa onde morava, uma pensão que servia refeições. Só servia refeições. Não era dormitório. Dona Maria, uma mulata alta e magra, baiana de Feira de Santana era a dona da pensão e locatária do imóvel. Fazia uma comidinha que deixava qualquer baiano arretado e causar inveja a qualquer famoso chef de cozinha internacional. O problema é que o pagamento tinha que ser era adiantado. Nada contra! Normal! Assim, ele teria de pagar as refeições antecipadas. Ele recebia o salário, pagava adiantado o valor mensal das refeições e quase nada lhe sobrava, pois não ganhava o suficiente para suprir todas as suas necessidades. Ainda não estava recebendo o salário pela nova função que haviam lhe atribuído. Certo dia, como sempre fazia ao sair do trabalho para o almoço dirigiu-se diretamente à pensão. Qual foi a decepção. Não acreditou no que viu. Se sua surpresa foi grande, sua tristeza foi ainda maior. “Na porta de entrada da casa, pelo lado de fora, estava afixado um edital da Justiça Estadual para conhecimento de terceiros: ‘‘Fechado por ordem do Excelentíssimo Senhor Juiz de Direito da 2a Vara Cível de São Paulo.” E agora? Pensou no que ia fazer sem dinheiro. Não acreditava no que lia. “Não pode ser verdade”, - dizia em voz baixa, tristonho. Leu e releu várias vezes o edital até convencer-se de sua veracidade. Estava mesmo fechado. Esse fato aconteceu exatamente no segundo dia após ele ter recebido o salário do mês. Ficou sem nenhum dinheiro para suprir as próximas refeições. O jeito foi procurar alternativa que lhe trouxesse o mínimo de condições para sobreviver até o mês seguinte. Não desanimou. Foi à luta!

Duas vezes por semana comprava uma bengala de pão numa padaria próxima à pensão aonde dormia, de quartos coletivos, uma dúzia de bananas na banca do fruteiro, na outra esquina da rua. Escondia-as debaixo da cama para que seus colegas de quarto não o vissem comendo. Fazia isso normalmente durante a noite ou a tardezinha quando seus amigos ainda não tinham retornado do trabalho. Isso perdurou por quase quatro semanas. De repente, num momento distraído, Fernandes, um dos seus grandes colegas, com quem divida o quarto, deixou o trabalho mais cedo, e ao chegar à pensão notou algo estranho. Em baixo da cama de Toninho estavam várias bananas e um pedaço de pão. Ele não se encontrava lá. Não havia retornado do trabalho ainda. Às dezoito horas e trinta minutos, quando Toninho chegou viu que as bananas e o pão estavam sobre sua cama. Estranhou tudo aquilo, mas não se acanhou. Guardou novamente, agora com cuidados redobrados. Fernandes havia saído por algum instante. Quando retornou foi logo perguntando a razão daquilo tudo. Toninho, jamais fizera coisa errada, e nunca escondeu de Fernandes qualquer dificuldade. Mas esse fato ele não queria levar ao conhecimento do amigo com quem sempre nutriu uma amizade profunda. Não o queria vê-lo contrariado.

Fernandes condoeu-se de sua situação e antes de achar uma solução, deu-lhe uma simples advertência, dizendo:

- Não tente esconder nada de mim. Diga-me tudo o que se passa com você, afinal somos irmãos, companheiros e amigos, na dor, na tristeza e na alegria. Um amigo verdadeiro é aquele que sabe perdoar, esquecer e que sempre está ao seu lado nos momentos de necessidade. Toninho abaixou a cabeça, entrelaçou-a entre as mãos e as lágrimas rolaram do seu rosto. Fernandes não o viu chorar.

Fernandes trabalhava numa empresa que tinha refeitório para seus empregados. Não lhe custava nada levar um pouco do que sobrava do almoço ao amigo e companheiro que precisava. Assim o fez. Todos os dias, após o almoço dia ao cozinheiro que preparasse uma quentinha para levar a um amigo que precisava. Desse jeito Toninho conseguiu resolver o problema alimentar do colega e contornar sua situação financeira até o próximo mês.

Dez anos se passaram, enquanto Toninho aperfeiçoava seus conhecimentos na empresa. Formou-se em contabilidade. Casou-se, com uma mulher brilhante, trabalhadeira, parcimoniosa e que o amava e o compreendia mais do que tudo na vida. Dessa união nasceram dois filhos varões.

No ano seguinte, por insistência da esposa, matriculou-se num cursinho para tentar o vestibular no curso de Direito. Após cinco anos de muita luta e sofrimento, concluiu-o com sucesso. Foi o 2o aluno melhor colocado em todas as matérias durante todo o curso. Mas, convenhamos, ele estudava muito.

Concluído o curso abriu um escritório de advocacia com alguns amigos, mas continuou trabalhando no escritório de contabilidade, que na verdade era de lá que tirava o sustento, o escritório mais conhecido e conceituado da cidade. Seu salário dobrou. Em pouco tempo comprou a casa financiada pelo antigo Banco Nacional da Habitação e um carro usado, mas que atendia seus anseios e necessidades. Nasceu seu primeiro filho, enquanto ele se dedicava ao trabalho cada vez mais. Dia e noite debruçava-se sobre os livros. Não tinha tempo para diversão e nem para a família. Foi uma luta árdua. Mas valeu a pena!

No transcorrer do curso, faltava-lhe dinheiro para o lanche e mal tinha para a condução do trem que lhe levava até Mogi. Às vezes passava frio, porque as janelas dos vagões estavam quebradas devido à sanha devastadora dos vândalos da periferia por onde o trem passava.

Quando chegava a casa à uma hora da manhã, a lhe esperar apenas a esposa e um copo de leite e uma maçã, seu único alimento daquele dia depois do almoço, não por falta de outra coisa o que comer, mas porque algumas horas depois ele teria que se levantar pegar o ônibus e ir para o trabalho. Levantava-se às cinco horas da manhã. Dormia apenas quatro horas. Trabalhava em Osasco.

No fim de cinco anos, porém, alcançou a vitória e a consagração. Diplomou-se em direito pela Universidade Braz Cubas. Malhou muito e passou algumas necessidades, mas não deixou faltar o essencial para a família. Sua mulher também ajudava nas despesas do lar. Vendia panetone que comprava da Bauducco aos vizinhos e perfumes da Avon, de porta em porta. Foi difícil, mas, finalmente conseguiu seu objetivo.

A partir daí tudo mudou em sua vida. Começou a participar da vida política e social da cidade. Foi dirigente partidário e alcançou com a eleição do prefeito, cujo candidato seu partido apoiou, um cargo na administração municipal. Foi nomeado Secretário de Governo. Nas férias que pode gozar, quando os encargos da função não lhe impediam de fazê-lo, conheceu alguns países da América do Sul e do Norte e viajou representando o Prefeito para alguns estados brasileiros, que patrocinavam seminários sobre administração pública e outros eventos. Falava e escrevia três idiomas: Inglês, Italiano e Espanhol.

Já como Diretor para Assuntos Internacionais de uma empresa multinacional de mineração, alguns anos após ser demitido do cargo de secretário da administração pública que exerceu durante seis anos, por motivo de eleição do candidato oposicionista, numa feira de produtos brasileiros, patrocinada pelo Ministério da Indústria e Comércio do Brasil, e realizada em Dublin, na República da Irlanda, conheceu o Doutor Stevenson, embaixador do Brasil naquele país. Tornaram se grandes amigos.

Hoje, Toninho é um homem feliz e realizado. Bem casado, dois filhos bem sucedidos na vida, uma bela mulher que lhe compreende e apoia em tudo que pretende e pensa fazer, boa aposentadoria e bem conceituado na sociedade onde vive. Participa de várias instituições beneficentes e sócio de várias entidades da sociedade. Maçonaria, Lion, Fraternidade São Francisco e outras em que apenas contribui financeiramente. Aposentou-se como Diretor de uma empresa pública. Deus deu-lhe mais do que precisava, como costuma dizer. Foi muito generoso para com ele e sua família. Nada tem a reclamar da vida. Nem motivo tem para isso! Conseguiu amealhar durante os tantos anos de trabalho uma razoável poupança e uma aposentadoria especial que lhe proporciona certa tranquilidade. E ainda conta com a ajuda dos filhos, se necessário nas viagens que realiza.